O Yscambau do Estilingue
Este é um texto introdutório. Se você quiser ler o texto de formalização dos processos operacionais do Yscambau (vinculados ao planejamento do Estilingue), remeta-se ao Processos_do_Yscambau |
Introdução
O Estilingue, como “plataforma de interface”, quer facilitar processos de aprendizado e inovação tecno-cultural e catalizar a formação de alianças, redes de solidariedade e de compatilhamento de conhecimentos e competências. Quer ser apropriado, como instrumento de ação coletiva, por (e para) pessoas, organizações e redes de ação, interessadas em transformação social, inovação tecno-cultural e apropriação democrática da mídia. Disponibiliza um conjunto de recursos (espaço físico, ferramentas de comunicação pública e de representação jurídica).
Infelizmente, é muito comum que, mesmo em organizações voltadas para finalidades como estas, apareçam assimetrias de poder que vão sendo reforçadas com o tempo. Isso acontece porque, freqüentemente, para executar uma ação, adota-se um modelo linear de coordenação: uns concebem e decidem (e ficando com os méritos), outros executam (e recebem a pecha de “meros técnicos”).
Para escapar desse destino, adotamos formas de coordenação de ação coletiva de tipo não lineares, ou anárquicas, derivadas (até certo ponto...) do funcionamento das licitações públicas e dos bazares. Isso, para evitar alguns cacoetes...
Chega de heróis, culpas e panelinhas !
Queremos escapar do “heroísmo”: ocorre muito de alguém se empenhar tanto nas atividades coletivas que ele se torna, aos olhos do grupo, moralmente superior. As opiniões do “mártir” passam a ter peso muito maior que as dos outros. São acatadas independentemente de serem efetivamente razoáveis ou bem fundadas, apenas por terem sido enunciadas pelo “herói”. Quer dizer: o passo seguinte do mártir que virou herói é tornar-se um déspota. E a organização assume uma hierarquia rígida.
Desejamos também nos esquivar do “complexo da dívida do militante”, espécie de versão atéia da velha culpa católica, muito comum em organizações políticas radicais. Funciona assim: para ficar bem diante dos companheiros, o militante se incumbe de muitas tarefas, sacrificando-se; acaba por não executá-las a contento e cobre-se de vergonha. Para “compensar” diante dos demais militantes , assume ainda mais tarefas. Até que desiste, e passa a ser visto como um traidor (e ameaçado!) pelos que permaneceram dentro da organização. O grupo fica cada vez menor, com menos capacidade de agir e cada vez mais paranóico, até acabar.
Há, finalmente um outro ciclo vicioso do qual é preciso fugir. Pode ser chamado de “comunalização estética”: é comum que as pessoas se juntem em torno de temas “edificantes”, que só servem para disfarçar o fato de que elas se ligam umas às outras apenas para não se sentirem sozinhas. Ou seja, a motivação é individualista e estritamente afetiva. Nessas circunstâncias, alguém que tente explicitar o caráter cosmético do coletivo ou que proponha que estabelecer compromissos de longo prazo, pede para ser escanteado ou expulso. Castigo merecido para quem ousou “quebrar o encanto” das adesões apaixonadas e volúveis...
(Notem que o mais comum é que os três cacoetes misturem-se!!)
Esticando os elásticos
Propomo-nos a desencadear as ações do Estilingue a partir de dois processos não-lineares de coordenação de ações, solidários entre si:
O planejamento colaborativo (PlanColab) e
- O sistema de trocas de tempos de trabalho (Yscambau).
PLANCOLAB
É uma reunião regular, aberta aos participantes do Estilingue e do Yscambau (ou seja: todo mundo que abriu conta no Yscambau).
Ocorre um PlanColab anual para definições de diretrizes estratégicas globais e PlanColabs bisemanais, para as deliberações táticas e imediatadas.
No PlanColab, os participantes irão:
- identificar as demandas coletivas de trabalho do Estilingue (“¿precisamos do quê?”),
- qualificá-las (“¿como vamos fazer?”),
- quantificá-las (‘quantas horas leva-se para fazer isso?”) e
- distribuí-las através do tempo (“¿quando precisa estar pronto?”).
Os participantes do PlanColab definirão quantos créditos (“Ymaginários” ou “ym”) serão destinados para quais atividades. Para isso, estabelecem os compromissos de cada participante com a satisfação das demandas coletivas. (Dentre outros, o de sustentar as necessidades infraestruturais do Estilingue, direta ou indiretamente).
YSCAMBAU
É o sistema de “economia solidária” em que os participantes das ações do Estilingue trocam tempo de trabalho entre si e como o próprio Estilingue. Nele, cada hora de trabalho realizado é quantificada como 1 ym. Não se faz distinção entre trabalho “braçal”, “intelectual”, “manual”, “técnico”, “criativo” ou “repetitivo”: como há, existencialmente, como comparar o valor do tempo de vida entre uma pessoa e outra, é melhor considerar que as horas de todos são equivalentes.
Através do Yscambau, cada pessoa ou organização participante poderá usufruir de serviços oferecidos pelo Estilingue e por outros participantes. Basta que ela ofereça e realize serviços ao Estilingue (conforme as demandas formuladas pelo PlanColab) ou por outros participantes.
Por princípio, todas as atividades oferecidas pelo Estilingue devem ser auto-sustentáveis. Por isso, sua fruição exige contrapartidas dos “consumidores finais”, seja através da doação de dinheiro (em R$), seja na prestação de serviços, através do Yscambau, pagos em ym. Trocando tempos podemos dispensar muitas transações em moeda corrente nacional (que é, para todos nós, escassa!). (Os pagamentos em dinheiro são, como padrão divididos entre o participante que oferece o serviço e o Estilingue — mas cabem negociações com o PlanColab, para casos específicos.)
Ao incorporar-se ao Yscambau, cada participante recebe uma conta que poderá acessar com sigilo e movimentar à vontade, na qual estarão registrados os seus créditos. Nesse momento, pode fazer um empréstimo de até 20,00 ym. Na página web de operação do Yscambau, terá acesso aos dados das atividades dos demais partipantes: que trabalhos oferecem, quais já realizaram, para quem e com qual avaliação (nota numérica e comentário) de quem os utilizaram. O participante poderá também publicar uma demanda de serviço, caso não encontre ninguém habilitado ou disponível.
Obs.: Caso um participante queira sair do Yscambau ou não caso não movimente sua conta por mais de 60 dias (30 dias renováveis por mais 30, mediante justificativa escrita), deverá devolver o empréstimo inicial para o sistema ou pagar sua dívida no “equivalente” em reais (hoje, fixado em 1,00 ym ~ R$ 20,00)*. Caso o ex-participante, ao sair do Yscambau, não faça doações** de ym a outros participantes, seus ym acumulados acima dos 20 (pagamento do empréstimo inicial) são destruídos.
* Temporariamente, não haverá conversibilidade entre ym e R$, senão quando um participante deixa de sê-lo.
** A única forma de fazer doações no Yscambau é ao sair do sistema.
Ah, é mesmo! O Bazaaaaar!
O Estilingue realizará feiras de trocas (sem moeda!) regularmente para que seus participantes possam se divertir enquanto resolvem demandas e sobras de objetos materiais. Damos prioridade para máquinas meta-recicladas, produtos orgânicos e provenientes de outros sistemas de economia solidária.
Referências:
